ESPAÇO CATÁRTICO por Eline Deccache Maia


INSENSÍVEL

Esta semana assisti uma cena de violência urbana. Nenhuma novidade  se pensarmos que vivemos em uma cidade onde a violência faz parte do cotidiano. Todo dia pela manhã ouço noticiários no rádio do carro e percebo que o conteúdo relacionado à violência é significativo. Com frequência são divulgados assaltos com ou sem vítimas, acidentes no trânsito, crimes passionais, desvios de verbas etc. É, são muitas as formas que a violência se manifesta!  Portanto, assistir a um episódio de violência é uma probabilidade grande para habitantes dos grandes centros urbanos, mesmo assim, nunca estamos preparados para isso e, o que é pior, não temos muita noção da reação que tal imagem pode detonar na gente. Ao voltar para casa por volta das 20h de segunda-feira, parei em um sinal perto do Maracanã a espera do verde para prosseguir. A uma distância equivalente a  cinco carros na minha frente, percebi que uma moto com dois homens parou do lado de um carro e uma certa movimentação prendeu o meu olhar: o carona da mota tinha uma arma apontada para o carona do carro que abriu o vidro e passou alguns pertences. O que mais me surpreendeu nessa cena “banal”, foi que havia um taxi ao lado do carro assaltado cujo motorista desceu com uma arma em punho e deu três tiros no homem que assaltava o carro. Assustado o assaltante sobe na moto  desaparecendo no meio do trânsito. Os protagonistas desta história sumiram e o seu desfecho não será conhecido.  O sinal abriu e os carros, inclusive o meu, prosseguiram rumo aos seus destinos. Fiquei impactada. A rapidez do episódio não me permitiu muita elucubração sobre o mesmo. Fiquei nervosa e amedrontada. Nos dias imediatamente após o ocorrido dirigi apreensiva e com medo de cada motocicleta que se aproximava do meu carro, mas em seguida relaxei. A violência é fato, mas o que mais me assustou nisso tudo foi constatar a rapidez com que a mesma é absorvida, entranhando sorrateiramente em nossas vidas e nos fazendo perder paulatinamente a capacidade de indignação e horror frente a mesma. Tornamo-nos insensíveis a ela, principalmente quando não somos atingidos diretamente. Perceber esse mecanismo em nossas vidas pode, ao menos, nos permitir compreender porque uma pessoa que vive em um ambiente violento o incorpora como lugar comum, como uma linguagem possível, muitas vezes a única aprendida. Talvez essa tomada de consciência nos devolva a indignação necessária frente ao quadro atual

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Escrito por Deccache às 01h26
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