ESPAÇO CATÁRTICO por Eline Deccache Maia


O GUARDIÃO DAS NORMAS OU DA AUSÊNCIA DA INSUBORDINAÇÃO

No meu prédio tem um porteiro que além de vigiar a portaria é guardião das normas do prédio. Essa última tarefa ele pegou tanto para si que a vida no edifício, quando é o horário dele, fica totalmente engessada. Ele leva ao pé da letra o que é passado. Outro dia precisava descarregar o carro e pedi para ele me deixar entrar na garagem. Sendo um prédio antigo temos apenas uma vaga por apartamento. Meu carro guardo fora. Recentemente uma norma foi criada proibindo a entrada de carros “estranhos” no prédio, por tumultos ocasionados. Recebi um redondo não, ou melhor, um quadrado não porque foi difícil de engolir. Ponderei com ele que não permaneceria na garagem, mas que apenas entraria, tiraria as coisas e sairia. Não. Insistiu. Percebi que não tinha nele uma vontade de poder, como algumas pessoas que, supondo-se sem poder na vida, aproveitam determinadas posições para exercitar temporariamente a vontade de mando. Havia nele um desconforto, estava nervoso com a situação. Resolvi ligar para a sindica que me autorizou. Alívio para o porteiro, a decisão tinha sido tirada de suas mãos.

Esse episódio me fez pensar em muitas coisas. Esse porteiro é jovem. De vez em quando o vejo lendo livros escolares. Parece que tenta melhorar sua situação. No entanto, falta nele uma característica importante: a coragem da “desobediência”. Ele é integrado demais às normas. Incapaz de pensar por si, segue todos os manuais que lhe são dados. A princípio poderia pensar que é uma atitude resultante do seu medo de perder o emprego. Não é isso, porque os demais porteiros têm uma postura muito mais solta, com jogo de cintura. Algumas pessoas poderiam estar pensando: ora, mas as normas não são para serem cumpridas? Sim, mas também para serem interpretadas de acordo com a situação. E é nessa possibilidade de interpretação que está a tensão. Que responsabilidade interpretar! Há que se ter discernimento. Não somos treinados para isso. Somos formados para obedecer regras cegamente. Omitem, nesse aprendizagem, o espaço da transgressão (segundo dicionário Houaiss: transgredir = ir além de; atravessar) que toda norma possui. Não fosse a transgressão não sairíamos do lugar. O episódio da portaria me fez pensar exatamente nisso. Esse porteiro desconhece o fato de que o medo que tem de romper as normas será o mesmo que o aprisionará no balcão da portaria dos prédios...como ainda é jovem torço para que ele aprenda a colocar em sua vida um pouco de  transgressão, não qualquer transgressão, mas aquela fruto de um pensamento crítico (a transgressão pela transgressão é tão sem sentido quanto a sua ausência...). Em tempo, não estou falando aqui do jeitinho brasileiro, de uma ética da malandragem analisada pelo antropólogo Roberto da Matta, mas sim de uma postura de insubordinação saudável decorrente de uma percepção da vida social para além do formato pronto a que somos apresentados...pequenas insubordinações cotidianas podem ser um bom exercício para pensar aquelas que nos são mais caras.

 

·       *  O episódio detonador desse texto foi um exemplo entre muitos outros que percebo no dia a dia do prédio... além disso, como a própria vida é transgressora, pode ser que ela se encarregue de libertar esse porteiro!!!



Escrito por Deccache às 16h17
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