ESPAÇO CATÁRTICO por Eline Deccache Maia


NÃO MAIS NOITES DE AUTÓGRAFOS

 

Esta semana fui a um lançamento de livro. Li no jornal sobre o assunto e resolvi comprar o livro nessa ocasião. Era um passeio acoplado a um evento cultural. O resultado final dessa empreitada foi a decisão de que nunca mais vou a um lançamento de livro, a não ser que o(a) autor(a) seja  meu(minha) amigo(a). Chegando na livraria comprei dois exemplares, intencionava dar um de presente e era exatamente o exemplar que seria dado que queria autografar. Na verdade, não tenho muito esse “fetiche” de livro autografado. Gosto das dedicatórias em livros quando essas são feitas por pessoas queridas cujo texto deixado me faz lembrar alguém, uma situação, uma época, ou seja, em que me identifico de alguma forma. Agora um autógrafo? Cá pra nós pouquíssimos autores têm imaginação para escrever algo original e nem penso que deveriam ter, porque imagina fazer 50, 100 e até mais dedicatórias originais? O autor gastaria toda a sua veia imaginativa nessa tarefa. Por isso saímos com livros autografados com escritas vagas e genéricas que poderiam servir para qualquer um, mas que, no entanto, por ter o nosso nome são particularizadas. Vamos para casa felizes, imaginando que o autor de fato redigiu algo especialmente para a gente. Contudo, quando damos para o autor dois livros para serem autografados,  essa sensação de exclusividade do texto pode ser dissipada, porque certamente leremos as duas dedicatórias e constataremos que uma é a variação do mesmo tema da outra. Depois de esperar mais de uma hora na fila cheguei até o autor, dei apenas o livro que queria presentear. O autor autografou e me devolveu e ao ver que tinha outro perguntou: você não quer que autografe o outro? Tentei persuadi-lo da ideia dizendo que não era necessário porque o livro era para mim. Ele insistiu. Dei, e a partir daí foi perdida a chance de levar para a casa a exclusividade imaginada da dedicatória. O autor não tem culpa, mal sabe ele o efeito do seu ato, mas a decisão de não ir mais a algum lançamento deve-se, além da espera prolongada, ao fato de ter sido revelada  essa trama de autoengano que realizamos, mas que, de uma certa forma, justifica(va) a nossa ida a lançamentos de livros para enfrentar filas e tomar vinhos de gosto duvidoso.  Resultado: não mais idas a noites de autógrafos!

 



Escrito por Deccache às 13h05
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