ESPAÇO CATÁRTICO por Eline Deccache Maia


QUAL O VALOR DA MEMÓRIA?

Sempre me angustiei por considerar a minha memória precária, afinal de contas inteligência sempre esteve associada à acúmulo de informações! Ao terminar de ler um livro, muitas vezes quando o fechava ficavam, em seu interior, os detalhes que a memória se recusava a reter. Nem mesmo o nome de alguns  autores a memória guardava. Quantas vezes me pegava pensando: por que ler então se não sou capaz de lembrar de grande parte do que leio? Apesar da pergunta, nunca consegui deixar de ler.

Fui percebendo aos poucos que mesmo “desmemoriada”, ou por isso mesmo, a leitura me possibilitou recriar na memória muito do que li. Não consigo lembrar os detalhes, as expressões, mas nunca me esqueço as sensações que tenho ao ler um livro. No final recomendo dizendo: este livro é uma delícia! É gostoso de se ler!  Quando me dei conta percebi que  os livros são quase alimentos para mim e que a leitura me deixa feliz. Amo os livros e o que eles me proporcionam, não para exibir erudição, nem o posso, pois a memória me trai. Quantas vezes tentei repetir passagens que me marcaram, ou frases clássicas do pensamento humano...nunca consegui reproduzi-las ipse literis , a não ser com uma “cola” ou como se diz na Bahia, com uma “pesca”. Acabava tendo que recriar a forma de expressar o sentido nelas contido.

Houve uma época em que até pensei em parar de ler. Achava que perdia tempo por essa minha "deficiência" de lembrar das coisas. Esse pensamento me acompanhou por um tempo. Hoje ele me parece totalmente descabido. Mesmo com pouca retenção do que leio, a leitura sempre valerá cada minuto despendido, porque foi por causa dela que consegui expressar, de modo próprio, as minhas idéias. A leitura me fez aprender um pouco da arte da escrita. E mais, descobri que a falta de memória pode ter sido uma aliada interessante na criatividade que sei que possuo.  Certamente nunca serei nenhum prodígio nos QUIZ da vida, mas a possibilidade de recriar mundos que desenvolvi a partir de uma “deficiência” por si só já compensa.  Aliás, coloque mais aspas na palavra “deficiência”, pois estudos recentes sobre neurociência apontam para a importância do esquecimento no aprendizado.  Uma pena que ainda hoje o ensino se baseie  na exploração da memória e que alunos sofram por se acharem incompetentes como um  dia eu me achei.  



Escrito por Deccache às 01h46
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