ESPAÇO CATÁRTICO por Eline Deccache Maia


ANDARILHA

Lendo um texto de uma amiga sobre os 20 anos de vida em sua casa*, comecei a refletir sobre a minha relação com a(s) minha(s) casa(s) nos últimos 20 anos...Fiquei surpresa com a quantidade de lugares que já morei. Recapitulo rapidamente: na Praça São Salvador, em Laranjeiras, foi o primeiro lugar que morei sem ser a casa dos meus pais, vivi em dois endereços distintos, um apartamento bem na praça e um outro, em períodos diferentes é claro, mais perto da rua Coelho Neto. Depois voltei para Niterói para a rua Roberto Silveira, de lá fui para a rua Mário Alves, em frente ao Estádio Caio Martins, saí dali para o bairro de Santa Rosa, onde morei pela primeira vez em uma casa na rua Maria Elmira, neste endereço fiquei apenas um ano. Em seguida fui para a rua Professor Otacílio. Da Professor Otacílio fui para Salvador-Bahia, morando em três endereços distintos na mesma rua Irmã Dulce. Voltei de Salvador e hoje estou no Grajaú. Esse inventário me fez refletir bastante...em cada mudança realizada me desfazia de muitas coisas. Cansei de sair dos lugares dando móveis que não caberiam no endereço futuro ou por inviabilidade de leva-los, como foi o caso da mudança para Salvador e da minha volta ao Rio. Quando resolvi sair de Salvador, deixei na cidade todos os meus pertences, com exceção dos livros e algumas roupas. Deixei por lá móveis e lembranças acumuladas, algumas recordações de pessoas muito queridas e importantes para mim, que ficaram por lá porque a urgência de viver foi muito mais pungente. Nunca me importei em (re)começar, algumas vezes do zero. Algumas pessoas me criticaram dizendo que desperdiçava dinheiro ao ser “impulsiva”. Na verdade quando via que tinha que me mudar e que o lugar não comportava algumas coisas, não pestanejava, arrumava sempre alguém para dar. Nunca vendi nada, não tenho paciência para isso...foram móveis para amigos, pessoas queridas e eu sempre conseguia comprar novos. Não sei se me apego a alguns princípios de vida  para sustentar minhas convicções, mas minha vida é uma demonstração de que quando fazemos as coisas circularem, temos retorno de algum modo. Em cada mudança fazia um “open house”...e foram muitos! Quando lembro dos lugares que vivi, vejo que alguns foram muito legais e bonitos, outros horrorosos. Teve um apartamento, o da Roberto Silveira, que cada cômodo tinha um piso frio absurdamente feio, mas a distribuição dos cômodos era boa. Quando fui morar joguei tapetes por todo canto para esconder aquele horror. Na Professor Otacílio o apartamento era surreal em termos de improviso, era um prédio pequeno com um apartamento nos fundos que tinha dois andares, os quartos ficavam em cima e subia por uma escada de caracol, um verdadeiro puxadinho!!!! Em alguns endereços sentia que estava em um acampamento provisório. Com exceção de dois dos imóveis de Salvador que comprei, os demais foram todos alugados. Mesmo sendo proprietária de dois, nunca senti  nenhum desses lugares como aquele que fincaria raízes. O conforto em ter meu canto está na total liberdade de deixar minhas coisas onde quero...sou uma bagunceira nata (mas limpinha rsssss) e isso para mim não tem preço. Sinto um certo frio na barriga quando penso que devo comprar algo para me livrar do aluguel e neste movimento perder a minha mobilidade...Não sei se vivi isso tudo por gostar tanto de circular e não me fixar, ou por falta de oportunidade...ou se pela primeira alternativa eu fujo das oportunidades. Nas vésperas da decisão do que fazer com os imóveis de Salvador e de ter uma chance concreta de ter algo mais permanente aqui no Rio, pensar sobre esse meu perfil nômade pode ajudar um pouco a tomar uma decisão. Viu só Ana Enne, está aí minha amiga o que seu texto fez comigo!

*Para quem quiser ler o texto de Ana Enne:

http://baiucadobaudelaire.blogspot.com.br/2014/03/eurico-aragao-antiga-47.html



Escrito por Deccache às 14h01
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INSENSÍVEL

Esta semana assisti uma cena de violência urbana. Nenhuma novidade  se pensarmos que vivemos em uma cidade onde a violência faz parte do cotidiano. Todo dia pela manhã ouço noticiários no rádio do carro e percebo que o conteúdo relacionado à violência é significativo. Com frequência são divulgados assaltos com ou sem vítimas, acidentes no trânsito, crimes passionais, desvios de verbas etc. É, são muitas as formas que a violência se manifesta!  Portanto, assistir a um episódio de violência é uma probabilidade grande para habitantes dos grandes centros urbanos, mesmo assim, nunca estamos preparados para isso e, o que é pior, não temos muita noção da reação que tal imagem pode detonar na gente. Ao voltar para casa por volta das 20h de segunda-feira, parei em um sinal perto do Maracanã a espera do verde para prosseguir. A uma distância equivalente a  cinco carros na minha frente, percebi que uma moto com dois homens parou do lado de um carro e uma certa movimentação prendeu o meu olhar: o carona da mota tinha uma arma apontada para o carona do carro que abriu o vidro e passou alguns pertences. O que mais me surpreendeu nessa cena “banal”, foi que havia um taxi ao lado do carro assaltado cujo motorista desceu com uma arma em punho e deu três tiros no homem que assaltava o carro. Assustado o assaltante sobe na moto  desaparecendo no meio do trânsito. Os protagonistas desta história sumiram e o seu desfecho não será conhecido.  O sinal abriu e os carros, inclusive o meu, prosseguiram rumo aos seus destinos. Fiquei impactada. A rapidez do episódio não me permitiu muita elucubração sobre o mesmo. Fiquei nervosa e amedrontada. Nos dias imediatamente após o ocorrido dirigi apreensiva e com medo de cada motocicleta que se aproximava do meu carro, mas em seguida relaxei. A violência é fato, mas o que mais me assustou nisso tudo foi constatar a rapidez com que a mesma é absorvida, entranhando sorrateiramente em nossas vidas e nos fazendo perder paulatinamente a capacidade de indignação e horror frente a mesma. Tornamo-nos insensíveis a ela, principalmente quando não somos atingidos diretamente. Perceber esse mecanismo em nossas vidas pode, ao menos, nos permitir compreender porque uma pessoa que vive em um ambiente violento o incorpora como lugar comum, como uma linguagem possível, muitas vezes a única aprendida. Talvez essa tomada de consciência nos devolva a indignação necessária frente ao quadro atual

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Escrito por Deccache às 01h26
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MUDANÇA

 

A vida é dinâmica, mesmo quando parece estar congelada. Muitas vezes temos a sensação de que vivemos um marasmo e que nada vai mudar. De repente a vida dá um salto desarrumando tudo, fazendo novas configurações. Ficamos com uma sensação de desequilíbrio, de vertigem. É que na maior parte do tempo não prestamos atenção aos sinais, muitas vezes sutis, outras não, de que a mudança está sendo processada. Os sinais podem vir na forma física, nas palpitações que sentimos sem identificar o motivo, levando-nos a pensar: por que estou com taquicardia? Por que meu sono está inquieto? E muitas outras sensações similares. Essas manifestações fisiológicas, quando não proporcionadas por um problema orgânico concreto, podem ser detonadas por um inconformismo inconsciente de situações que vivemos. Um emprego que nos faz engolir alguns sapos; um relacionamento que não nos satisfaz mais etc etc. Nosso organismo, ao ter essas reações, nos sinaliza a necessidade de mudança. Nosso corpo nos avisa, embora muitas vezes não entendamos seus códigos. Vamos ao médico, realizamos exames e saímos aliviados quando os resultados são negativos. Relaxamos e continuamos a viver e conviver com essas sensações incômodas. Passa-se o tempo e com ele vem uma avalanche que reviravolta tudo. Esse terremoto, muitas vezes vistos como hecatombes particulares, não é dada pela natureza, são as nossas “placas tectônicas psíquicas”   que se mexem, rearrumando as coisas. Muitos ficam imobilizados com esse fenômeno. Outros aproveitam para reorganizar a vida de outro modo e, de repente, não mais que de repente, a taquicardia se vai, a angústia desaparece. A vida se tranquiliza. Até quando? Que importa, a vida é isso: movimento!

 



Escrito por Deccache às 11h33
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QUE VENHA 2013!

 

2012! O que falar desse ano? Intenso! Um ano intensamente movimentado em todos os sentidos, nas coisas boas e nas ruins. Foi um ano de mudanças internas e externas. Fiz faxina, portanto, foi um ano de limpeza. Tirei um bocado de entulho da minha vida. Fiquei mais leve. 2012, um ano de leveza. Ao faxinar percebi como gostamos de acumular lixos ao longo da vida e, sem nos darmos conta, o peso nos torna lentos e ocupa espaço evitando que coisas novas entrem. Foi um ano de encerrar histórias mal contadas e mal vividas. De entender que volume não é qualidade e que não precisamos manter a qualquer preço pessoas ao nosso lado só para cultivar a sensação de popularidade. Ficaram as pessoas que de fato fazem diferença. Entraram novas pessoas, de outra natureza. É que em meio a tantas mudanças meu olhar sobre o mundo também mudou,  despertando a minha atenção para novas qualidades. Com tanto movimento considero 2012 um dos melhores anos de minha vida, mesmo com o boato de que o mundo acabaria. O mundo não acabou e 2013 está chegando. O que virá é uma incógnita, fica apenas a certeza de que estou preparada para sorver cada gota de vida que me for possível. É com esse espírito que me despeço de 2012,  agradecendo tudo que vivi e desejando a todos os amigos e amigas que tenham a experiência  e alegria que  tive.

 



Escrito por Deccache às 15h38
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SOMOS TODOS AUTORES

 

Nessa semana que passou recebi um e-mail de uma amiga. Era uma mensagem desabafo que expressava um momento de crise. Uma crise advinda do fato dela ter completado 50 anos. No meio de seu texto ela dizia que sentia um vazio por ter chegado nessa fase da vida sem ter feito nada, nada que melhorasse ou mudasse o mundo. Quantas pessoas questionam suas vidas considerando-as menos importantes do que as de outras que, de alguma forma, podem influenciar o mundo com a sua obra, suas atitudes, ao escrever um livro, compor uma sinfonia etc. Geralmente nos comparamos com aquelas pessoas que acreditamos que são minimamente felizes por terem se destacado na vida social, ganhando notoriedade por suas produções, mesmo que postumamente. E quem disse que essas pessoas não vivem a sua própria crise? E mais, o que seria dessas pessoas se as “comuns” não existissem para inspirar-lhes? Quem foi que colocou na nossa cabeça que para construirmos sentido para as nossas vidas temos que fazer grandes coisas (entendendo-se, frequentemente, coisas como algo palpável: livros, cds, esculturas etc)? E o que é o “grande”? Será que a mãe (tia, cozinheira, pai etc) que faz aquele bolo de chocolate e que deixa as crianças lambuzarem-se com a massa crua na bagunça da cozinha não está fazendo algo grande na história de vida dessas crianças? Uma vida tomada como exemplo por sua conduta ética não seria algo grandioso? O que está em jogo é a extensão de nossa influência. Desejamos contribuir para mudar o mundo... Mas, sinceramente, quem muda o mundo sozinho? Mudamos o mundo em coletividade, podemos até utilizar uma vida como exemplo, mas esse exemplo tem que ser compartilhado por muitos, do contrário não provoca nenhum efeito transformador. Sabemos que por trás de uma vida que torna-se exemplo existe uma grande “campanha de marketing” e com uma boa propaganda, cá pra nós,  não é preciso uma vida com grandes realizações. A história está aí para nos mostrar quantos heróis, cujas vidas não justificariam tal título, foram fabricados. No fundo, todos nós escrevemos uma obra quando vivemos e não importa o que os críticos da vida nos falem, cada biografia é uma obra de arte, é única e pode tornar-se um enredo de qualquer romance elaborado por um bom escritor. Resta-nos saber quais temperos vamos querer colocar na nossa própria história e, como na culinária, cada um sabe qual o gosto que mais agrada ao paladar e o que mais apetece em determinados momentos.

 



Escrito por Deccache às 00h09
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O GUARDIÃO DAS NORMAS OU DA AUSÊNCIA DA INSUBORDINAÇÃO

No meu prédio tem um porteiro que além de vigiar a portaria é guardião das normas do prédio. Essa última tarefa ele pegou tanto para si que a vida no edifício, quando é o horário dele, fica totalmente engessada. Ele leva ao pé da letra o que é passado. Outro dia precisava descarregar o carro e pedi para ele me deixar entrar na garagem. Sendo um prédio antigo temos apenas uma vaga por apartamento. Meu carro guardo fora. Recentemente uma norma foi criada proibindo a entrada de carros “estranhos” no prédio, por tumultos ocasionados. Recebi um redondo não, ou melhor, um quadrado não porque foi difícil de engolir. Ponderei com ele que não permaneceria na garagem, mas que apenas entraria, tiraria as coisas e sairia. Não. Insistiu. Percebi que não tinha nele uma vontade de poder, como algumas pessoas que, supondo-se sem poder na vida, aproveitam determinadas posições para exercitar temporariamente a vontade de mando. Havia nele um desconforto, estava nervoso com a situação. Resolvi ligar para a sindica que me autorizou. Alívio para o porteiro, a decisão tinha sido tirada de suas mãos.

Esse episódio me fez pensar em muitas coisas. Esse porteiro é jovem. De vez em quando o vejo lendo livros escolares. Parece que tenta melhorar sua situação. No entanto, falta nele uma característica importante: a coragem da “desobediência”. Ele é integrado demais às normas. Incapaz de pensar por si, segue todos os manuais que lhe são dados. A princípio poderia pensar que é uma atitude resultante do seu medo de perder o emprego. Não é isso, porque os demais porteiros têm uma postura muito mais solta, com jogo de cintura. Algumas pessoas poderiam estar pensando: ora, mas as normas não são para serem cumpridas? Sim, mas também para serem interpretadas de acordo com a situação. E é nessa possibilidade de interpretação que está a tensão. Que responsabilidade interpretar! Há que se ter discernimento. Não somos treinados para isso. Somos formados para obedecer regras cegamente. Omitem, nesse aprendizagem, o espaço da transgressão (segundo dicionário Houaiss: transgredir = ir além de; atravessar) que toda norma possui. Não fosse a transgressão não sairíamos do lugar. O episódio da portaria me fez pensar exatamente nisso. Esse porteiro desconhece o fato de que o medo que tem de romper as normas será o mesmo que o aprisionará no balcão da portaria dos prédios...como ainda é jovem torço para que ele aprenda a colocar em sua vida um pouco de  transgressão, não qualquer transgressão, mas aquela fruto de um pensamento crítico (a transgressão pela transgressão é tão sem sentido quanto a sua ausência...). Em tempo, não estou falando aqui do jeitinho brasileiro, de uma ética da malandragem analisada pelo antropólogo Roberto da Matta, mas sim de uma postura de insubordinação saudável decorrente de uma percepção da vida social para além do formato pronto a que somos apresentados...pequenas insubordinações cotidianas podem ser um bom exercício para pensar aquelas que nos são mais caras.

 

·       *  O episódio detonador desse texto foi um exemplo entre muitos outros que percebo no dia a dia do prédio... além disso, como a própria vida é transgressora, pode ser que ela se encarregue de libertar esse porteiro!!!



Escrito por Deccache às 16h17
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NÃO MAIS NOITES DE AUTÓGRAFOS

 

Esta semana fui a um lançamento de livro. Li no jornal sobre o assunto e resolvi comprar o livro nessa ocasião. Era um passeio acoplado a um evento cultural. O resultado final dessa empreitada foi a decisão de que nunca mais vou a um lançamento de livro, a não ser que o(a) autor(a) seja  meu(minha) amigo(a). Chegando na livraria comprei dois exemplares, intencionava dar um de presente e era exatamente o exemplar que seria dado que queria autografar. Na verdade, não tenho muito esse “fetiche” de livro autografado. Gosto das dedicatórias em livros quando essas são feitas por pessoas queridas cujo texto deixado me faz lembrar alguém, uma situação, uma época, ou seja, em que me identifico de alguma forma. Agora um autógrafo? Cá pra nós pouquíssimos autores têm imaginação para escrever algo original e nem penso que deveriam ter, porque imagina fazer 50, 100 e até mais dedicatórias originais? O autor gastaria toda a sua veia imaginativa nessa tarefa. Por isso saímos com livros autografados com escritas vagas e genéricas que poderiam servir para qualquer um, mas que, no entanto, por ter o nosso nome são particularizadas. Vamos para casa felizes, imaginando que o autor de fato redigiu algo especialmente para a gente. Contudo, quando damos para o autor dois livros para serem autografados,  essa sensação de exclusividade do texto pode ser dissipada, porque certamente leremos as duas dedicatórias e constataremos que uma é a variação do mesmo tema da outra. Depois de esperar mais de uma hora na fila cheguei até o autor, dei apenas o livro que queria presentear. O autor autografou e me devolveu e ao ver que tinha outro perguntou: você não quer que autografe o outro? Tentei persuadi-lo da ideia dizendo que não era necessário porque o livro era para mim. Ele insistiu. Dei, e a partir daí foi perdida a chance de levar para a casa a exclusividade imaginada da dedicatória. O autor não tem culpa, mal sabe ele o efeito do seu ato, mas a decisão de não ir mais a algum lançamento deve-se, além da espera prolongada, ao fato de ter sido revelada  essa trama de autoengano que realizamos, mas que, de uma certa forma, justifica(va) a nossa ida a lançamentos de livros para enfrentar filas e tomar vinhos de gosto duvidoso.  Resultado: não mais idas a noites de autógrafos!

 



Escrito por Deccache às 13h05
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SEPARAÇÕES

 

Nos últimos meses  tenho experimentado muitas formas de separação. A inexorável, trazida pela morte e a deliberada realizada pela escolha de seguir a vida de outro modo. Todas as duas nos deparam com o fato de que pessoas não farão mais parte da nossa vida. Ambas nos levam a vivenciar lutos, distintos é verdade, mas doloridos de todo modo.

Qual seria a mais fácil? Uma vez ouvi alguém dizendo após se separar: “gostaria que  ele tivesse morrido!”.  Fiquei perplexa, mas agora resgato essa frase buscando compreendê-la. A separação causada pela morte, congela a pessoa no tempo. Nada mais existirá a partir dali. É ponto final. A separação feita pela escolha nos obriga a aprender a lidar com a continuidade de vidas separadas, que não se refazem ao mesmo tempo e da mesma forma, o que nos leva a comparações. Quem está melhor? Quem está mais feliz? Contudo, quando isso existe é porque a separação  não se concretizou de verdade. Sabemos que estamos definitivamente separados quando nada disso mais importa. Quando a vida de ambos passa a ter uma autonomia, uma liberdade que justifica todo o esforço despendido na separação.

A separação, seja qual for, sempre nos confronta com o fato de que, para conseguir vivenciá-la plenamente, precisamos buscar estar fortes, bem resolvidos, porque ela nos afronta com a realidade de que, ao fim e ao cabo, somos sozinhos. Não falo da solidão de alguém que se isola do mundo, que não tem amigos, falo daquela mais profunda, atávica, que mostra que tem coisas na vida que só nós podemos dar conta. Nesses momentos temos que estabelecer um diálogo interno onde muitas coisas são reviradas. Nesse processo aprendemos muito sobre nós mesmos. Acontece que para isso é preciso ter coragem porque não é uma viagem fácil. Nisso as separações servem como verdadeiras escolas, elas nos permitem ver a necessidade do reencontro com quem mais importa, promovendo uma reaproximação com alguém que, sem nos darmos conta, nos deixamos separar: nós mesmos!

 ·         De uma certa forma, ainda falo da Arte do Encontro!

 



Escrito por Deccache às 13h22
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A ARTE DO ENCONTRO

 “...A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida..."

Que dizer de 2011? De cara que foi um ano que postei nada ou quase nada no meu blog. É que diante de tantos encontros que marcaram este período o meu Espaço Catártico acabou ficando de lado. A vida foi mais urgente do que a reflexão sobre ela. E aqui estou tentando reocupar um espaço que foi muito importante para mim em 2010. Através do meu blog realizei um encontro fundamental, sem o qual todos que o sucederam não seriam possíveis, que foi o encontro comigo mesma. A escrita produzida, juntamente com o retorno através dos comentários dos amigos, funcionou como fonte poderosa de renovação. Meu blog foi um espaço virtual criado como fonte possível de encontros naquele momento.

Tudo o que veio a seguir foi explosão, meu Big Bang particular de criação de  um novo mundo que vem sendo reinventado. 2011 foi um ano de reconstrução e como a vida é a arte do encontro, resgatando o poetinha, tudo ficou mais fácil para mim porque no meio do caminho eu não encontrei uma pedra e sim muitos amigos(as)! Amigos(as) que não via há muito tempo, amigos(as) novos...enfim, simplesmente amigos(as). Por esse motivo, esse texto é uma homenagem a vocês amigos(as) mais que queridos(as), muitos até desconhecendo o papel que desempenharam, é que  amizade é assim mesmo, uma potência em si!

 Segue o Samba da Benção, porque é muito melhor ser alegre do que triste... e que 2012 seja um ano alegre para todos nós!!!!!!

 




Escrito por Deccache às 13h55
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QUAL O VALOR DA MEMÓRIA?

Sempre me angustiei por considerar a minha memória precária, afinal de contas inteligência sempre esteve associada à acúmulo de informações! Ao terminar de ler um livro, muitas vezes quando o fechava ficavam, em seu interior, os detalhes que a memória se recusava a reter. Nem mesmo o nome de alguns  autores a memória guardava. Quantas vezes me pegava pensando: por que ler então se não sou capaz de lembrar de grande parte do que leio? Apesar da pergunta, nunca consegui deixar de ler.

Fui percebendo aos poucos que mesmo “desmemoriada”, ou por isso mesmo, a leitura me possibilitou recriar na memória muito do que li. Não consigo lembrar os detalhes, as expressões, mas nunca me esqueço as sensações que tenho ao ler um livro. No final recomendo dizendo: este livro é uma delícia! É gostoso de se ler!  Quando me dei conta percebi que  os livros são quase alimentos para mim e que a leitura me deixa feliz. Amo os livros e o que eles me proporcionam, não para exibir erudição, nem o posso, pois a memória me trai. Quantas vezes tentei repetir passagens que me marcaram, ou frases clássicas do pensamento humano...nunca consegui reproduzi-las ipse literis , a não ser com uma “cola” ou como se diz na Bahia, com uma “pesca”. Acabava tendo que recriar a forma de expressar o sentido nelas contido.

Houve uma época em que até pensei em parar de ler. Achava que perdia tempo por essa minha "deficiência" de lembrar das coisas. Esse pensamento me acompanhou por um tempo. Hoje ele me parece totalmente descabido. Mesmo com pouca retenção do que leio, a leitura sempre valerá cada minuto despendido, porque foi por causa dela que consegui expressar, de modo próprio, as minhas idéias. A leitura me fez aprender um pouco da arte da escrita. E mais, descobri que a falta de memória pode ter sido uma aliada interessante na criatividade que sei que possuo.  Certamente nunca serei nenhum prodígio nos QUIZ da vida, mas a possibilidade de recriar mundos que desenvolvi a partir de uma “deficiência” por si só já compensa.  Aliás, coloque mais aspas na palavra “deficiência”, pois estudos recentes sobre neurociência apontam para a importância do esquecimento no aprendizado.  Uma pena que ainda hoje o ensino se baseie  na exploração da memória e que alunos sofram por se acharem incompetentes como um  dia eu me achei.  



Escrito por Deccache às 01h46
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DEUS E O DIABO ESTÃO NOS DETALHES

A rixa existente entre ingleses e franceses está presente até em um ditado popular que na versão inglesa aparece “O diabo está nos detalhes” e na francesa “Deus está nos detalhes”. Onde estaria a razão, com os ingleses ou franceses? Em minha opinião, as visões são complementares e o mais apropriado seria dizer “Deus e o Diabo estão nos detalhes”.

Havendo consenso de que Deus representa o aspecto positivo e o diabo o negativo, podemos mais uma vez perceber que tudo na vida deve ser ponderado e medido de acordo com a situação e os detalhes não podem passar despercebidos.   

E quando podemos perceber um ou outro? Bom, posso falar da minha experiência, que talvez seja compartilhada por alguns. Na minha opinião, Deus está nos detalhes quando se trata da arte produzida tanto pela natureza quanto pelos homens. Fico extasiada ao ver uma pintura, escultura, bordado, arquitetura etc, cujos detalhes te prendem de tal forma que você quase se mistura à obra ao perder-se nela. O artista erudito ou popular consegue com os detalhes ir, sutilmente, enredando o olhar e a imaginação até o expectador chegar ao deleite que, dependendo da intensidade,  se reflete até mesmo em uma manifestação física fazendo os olhos lacrimejar de emoção. Ah, quem não se prende nesses detalhes deixa de sorver uma deliciosa sensação  retirada das manifestações estéticas espalhadas pelo mundo. Na linha do dito popular francês, isso só pode mesmo ser coisa de Deus!

E o diabo como se manifestaria nos detalhes? Quando ele nos distrai com algum ardil e por falta de percepção  algo de grave pode acontecer ou deixar de acontecer. Vejamos na prática. Um projeto de engenharia que pode ser comprometido por um detalhe que passa despercebido, como uma casa decimal de um cálculo feito sem cuidado com os detalhes, daí percebemos que o diabo ali se fixou! Também se perder em detalhes pode levar ao imobilismo,  esse seria outro tipo de peça que o diabo nos prega, quando nos hipnotiza com filigranas e a vida vai passando e não nos damos conta porque ficamos apegados em demasia às minúcias.

Sendo Deus ou o Diabo que se escondem nos detalhes, o que importa é perceber que os detalhes fazem parte da vida e cabe a nós termos discernimento para identificar Deus ou o Diabo, entendendo que ambos são faces da mesma moeda!



Escrito por Deccache às 18h25
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O QUE TE FAZ FELIZ?

Ontem saiu a seguinte matéria no site do UOL “Autoconhecimento pode não trazer felicidade, diz psiquiatra”, redigida pelo psiquiatra Richard Friedman. No texto o autor fala de suas experiências como terapeuta, dizendo que nem sempre o recurso da introspecção gera benefícios ao paciente, podendo, inclusive, levá-lo à angustia; em outras ocasiões o autoconhecimento pode  gerar libertações de amarras que sufocam, como foi o caso de um paciente dele que escolheu uma profissão por imposição do pai e, quando isto ficou claro, resolveu buscar fazer o que de fato gostava, superando a fonte de sua insatisfação. Richard Friedman constata, portanto, que o terapeuta deve estar atento a essas reações e adaptar sua abordagem de acordo com cada paciente.

O  que mais me chamou atenção no artigo, entretanto, foi o seu final. Nas próprias palavras do autor: “Percebi, então, que sou muito bom em tratar a tristeza clínica com remédios e terapia, mas que trazer felicidade é algo além. Talvez a felicidade seja um pouco como a autoestima: as duas requerem esforço. Pois, até onde eu sei, é impossível obter uma infusão de qualquer uma delas com um terapeuta.”

Essa pista sobre a felicidade  vai ao encontro com o que penso: que no final das contas ser feliz é uma escolha que requer esforço e trabalho constantes. Ninguém é feliz 24 horas, as vezes a felicidade vem de tempos em tempos, mas a busca da felicidade pode ser uma perspectiva de vida, que requer um conhecimento mínimo das fontes que nos trazem felicidade...sem querer contradizer o que foi escrito até aqui, mas já contradizendo,  uma dose de autoconhecimento pode ser de grande valia para nos auxiliar na detecção daquilo que gera felicidade para cada um. E mais, que a felicidade tem muitas faces e que o estereótipo  que fazemos da pessoa feliz pode ser artificial para uma grande maioria. Impor um modelo de felicidade pode ser uma grande armadilha que leva à infelicidade. Resta a tarefa, nem sempre fácil, de descobrirmos nossos próprios modelos.


 



Escrito por Deccache às 15h10
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NUNCA COMO ANTES

 

Começa o ano e já na metade do primeiro mês vamos esquecendo  o clima das festas de fim de ano. O esquecimento não é de vez. Até o final de janeiro ainda encontraremos pessoas retardatárias que nos desejarão um feliz Ano Novo.

A vida vai tomando seu rumo e as férias, para muitos, vão terminando. A rotina vai, aos poucos,  se instaurando e quando menos percebemos estamos completamente envolvidos por ela. O ritmo vai se acelerando lentamente. O ano de fato segue um ciclo.  Nos seis primeiros meses estamos com todo o gás, afinal as festas nos revigoraram, assim como as férias para muitos. Nos últimos seis meses, sentimos que as baterias vão aos poucos descarregando e já lá para o final estamos nos arrastando, loucos para que chegue logo O Natal, Ano Novo e férias para recarregarmos as forças e dar início a novo ciclo.

No entanto, mesmo retornando nossas atividades e tendo a sensação de já ter visto esse filme, nunca somos as mesmas pessoas. Ah, o velho Heráclito de Éfeso estava coberto de razão ao dizer que ninguém pode mergulhar no mesmo rio duas vezes, porque ambos, rio e  pessoa, modificam-se constantemente.  Não somos mais do que um vir a ser... Por isso, mesmo entrando na rotina novamente, nada será como antes, embora tudo conspire para  que acreditemos que seja. É confortante essa sensação de estabilidade que a rotina nos dá: encontraremos nossas vidas do mesmo jeito.  Uma ilusão necessária, embora  falsa, não somos os mesmos nem do lado de dentro nem do lado de fora, sendo a melhor mudança   a que se processa internamente.

Mesmo que externamente a vida pareça igual, não a vivemos como antes. Nossos olhares vão se modificando, mas até mesmo essa transformação vai se dando com sutilezas para que nossos olhos e corações acostumem-se com as mesmas e não sofram vertigens. As mudanças bruscas, sendo boas ou ruins, sempre nos causam sentimentos ambíguos.

Ouço muito pessoas dizendo: "viu como fulano mudou da água para o vinho?" ou "não reconheço mais ciclano, ele não é mais o mesmo!" O que as pessoas desconhecem, de um modo geral, é que nada é como antes. As mudanças se processam a cada segundo de nossa existência, é o acúmulo delas ao longo do tempo que vai permitindo a sua exteriorização, tornando visível um processo contínuo. Essa dinâmica  é muito interessante, mostra que estamos aprendendo sempre, mesmo sem o saber.  Talvez aproveitássemos mais tendo consciência desta dinâmica e potencializando-a. Mesmo assim, ela está lá!



Escrito por Deccache às 11h49
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MAIS UM FIM DE ANO

 

Mais um final de ano! Sei que uma análise  crítica deste período cairia na discussão de ser esta uma data inventada para aquecer o comércio e que o significado primordial deste momento há muito se perdeu... Não vou enveredar por essa lógica, até porque as análises muito críticas podem ser muito chatas...

Adoro esta época do ano. O Natal para mim tem cheiro de encontro com a família e  pessoas queridas, mesmo quando esses encontros não acontecem da forma como foram idealizados, sempre tem o ano seguinte.

É neste momento que começo a articular encontros com amigos e amigas que não consegui ver durante o ano todo, até porque sempre tem o fim de ano! A agenda fica cheia. São almoços, jantares, encontros em cafés, conversas intermináveis porque os assuntos se acumularam e tudo é passado a limpo. O mês de dezembro acaba sendo um grande momento em que realizamos uma análise do que vivemos no ano que se finda, somando os projetos para o ano que virá.

Essas conversas vão sendo tecidas regadas por boas comidas, bons cafés, vinhos...este último é um grande companheiro porque vai ajudando a soltar ainda mais a língua. Não tenho dúvida de que estar com as pessoas é o que de melhor essa época nos proporciona, mas tem um outro aspecto que me parece muito interessante também. As longas conversas promovem um insight sobre nós mesmos. Ao falarmos e ao ouvirmos as opiniões e vivências, conseguimos compreender algumas coisas que na pressa de viver não paramos para analisar. É um click mental que a troca de idéias vai nos possibilitando.

Como gosto disso tudo! Como amo meus amigos e familiares! Natal e Ano Novo para mim tem esse significado. O do encontro com os outros e, como resultante, o encontro comigo mesma.

Feliz Natal e um excelente 2011 para todos e todas!!



Escrito por Deccache às 21h35
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NO OLHO DO FURACÃO

 

Tem momentos que a vida não faz nenhum sentido, que parece que está tudo de cabeça para baixo. Perdemos as referências, o significado das coisas e, pior ainda, às vezes a dor é tão intensa que parece que o ar vai nos faltar.  Estamos no olho do furacão, acreditando piamente que não vamos sobreviver. Daí o furacão se aquieta e a tempestade passa, olhamos a paisagem e tudo ao redor está destruído, sobrando apenas destroços. É neste momento que percebemos que sobrevivemos e que, magicamente, somos tomados de uma força de reconstrução. Saímos catando os caquinhos daquilo que fomos para ser possível recuperar e reconstruir aquilo que seremos. Vamos descobrindo que detemos  uma força interior jamais suposta.  

A vida parece ser cíclica, nos fazendo passar por uma sucessão de tempestades e bonanças, até compreendermos, ou ao menos nos resignarmos, que a dinâmica da vida é essa. Não conheço ninguém muito preparado para viver o período furacão da vida, apenas aqueles que têm “espírito bombeiro” de ser. É aquela pessoa que vai acalmando as outras e tentando fazer amenizar os estragos. Outras se desesperam de tal forma que parece aliada do furacão ao tornar tudo muito pior.  Que difícil saber o que e como fazer em momentos assim. Não existem manuais de sobrevivência a seguir, aprendemos aos trancos e barrancos, mas uma coisa é certa: somos muito mais fortes do que supomos e a bonança vem em seguida. E assim, seguimos vivendo...

 



Escrito por Deccache às 10h41
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